Guardiã do Caldeirão da Inspiração e Transformação
Mito de Ceridwen
O nome Ceridwen já foi traduzido de diversas maneiras como "amor perfeito", "mulher tortuosa", "fortaleza do conhecimento" e "canção branca". Algumas fontes galesas dizem que seu nome é Graidwen, incorporando uma palavra arcaica que significa quente, fúria, bravura ou luta. Ela é reconhecida como uma figura ao mesmo tempo bela e assustadora - uma deusa da terra, da colheita, da magia, da sabedoria, poesia e inspiração, morte e renascimento, iniciação e transformação.
Na lenda Gales do Mabinogion, Ceridwen vivia na época do Rei Artur com seu marido, o gigante Tegid o Careca, no Lago de Tegid no Norte de Gales. Ela tinha poderes de profecia e é a guardiã do caldeirão da transformação, conhecimento e inspiração no Submundo. Como típico das deusas celtas, Ceridwen tem dois filhos: a filha Crearwy é a mais bela jovem que existe, mas o filho Morfran (que significa Gralha do Mar ou Grande Gralha) é feio e tolo. Em algumas versões da lenda, Morfran tem seu nome alterado para Afagddu, que significa Escuridão Profunda. Ele se cobria com o cabelo grosseiramente. Morfran era tão feio que em batalha os inimigos não batiam nele por medo de estarem batendo no demônio.
Por causa da aparência do seu filho, Ceridwen acreditava que ele teria dificuldades no seu caminho como um grande guerreiro da Bretanha. Ela decidiu usar seu conhecimento para criar uma poção com uma fórmula mágica chamada greal (talvez esse nome seja relacionado ao Santo Graal do Rei Artur). O greal daria ao seu filho conhecimento e a habilidade da profecia (em algumas versões também a beleza). Nos dias adequados, ela pegou as ervas necessárias e colocou em seu caldeirão, que se chamava Amen. Mais uma vez existem algumas especulações com relação ao nome do caldeirão e as culturas judia, muçulmana e cristã. Inclusive, na mitologia egípcia Amen era a palavra para um deus e pode ser traduzida como Aquele que está escondido.
A poção, ou greal, teria que ser aquecida por um ano e um dia na temperatura certa e nunca deixar de ser mexida. Durante este tempo, Ceridwen se manteve ocupada coletando mais ervas e adicionando mais água fresca. Por isso ela contratou a ajuda de um homem cego chamado Morda e um jovem chamado Gwion Bach para alimentar o fogo e mexer o caldeirão, respectivamente.
No final de um ano e um dia, Ceridwen trouxe Morfran para tomar as 3 primeiras gotas da poção. Elas continham a virtude das ervas concentradas e o restante era um veneno mortal. No último momento, no entanto, Gwion Bach tomou as 3 gotas. Alguns dizem que ele se colocou na frente de Morfran e outros que ele se queimou enquanto mexia a poção e as 3 gotas caíram na sua mão e ele instintivamente limpou-as com a boca. Depois disso, o caldeirão quebrou na mesma hora.

Gwion Bach e Morda na hora que o caldeirão quebrou: "Eeeeita!"
Gwion fugiu, com Ceridwen enfurecida perseguindo-o. Gwion se transformou em uma lebre para ser rápido, mas Ceridwen virou um cão cinzento. Indo parar junto de um rio, Gwion virou um peixe e Ceridwen o perseguiu como uma lontra. Gwion então virou um pássaro e Ceridwen se transformou em uma águia. Por fim, Gwion virou um grão e Ceridwen o engoliu na forma de uma galinha preta.
A semente cresceu dentro de Ceridwen e nove meses depois ela deu a luz a um menino.
Ela não queria criá-lo por saber ser Gwion mas também não queria matá-lo por ser um lindo bebê. Então ela o colocou em uma cesta no rio onde ele foi encontrado por Elffin e se tornou o bardo Taliesin.
Interpretando o Mito - Transformação e Inspiração
Há muita magia nesta história e muitas pessoas veem Ceridwen como o esteriótipo da bruxa - uma velha com conhecimentos em segredos arcanos, misturando poções misteriosas no seu caldeirão. Na tradução desta historia por Patrick K. Ford's em 1997, Ceridwen é uma maga proficiente em 3 artes: magia, encantamentos e divinações.
Enquanto Ceridwen pode certamente ser relacionada a bruxa anciã, ela é claramente retratada como uma mãe nesta história. Ela é uma mulher madura, talvez, mas não incapaz de ter filhos. Por outro lado, em um dos poemas atribuídos a Taliesin, ela é referida como "uma sorridente bruxa velha das trevas". A palavra em gales para hag é gwrach que significa tanto bruxa quando mulher velha e feia. Então Ceridwen pode ser tanto mãe quanto anciã, deusa do nascimento e morte dependendo das circunstâncias.
Mudança de forma é comum na mitologia celta. As transformações de Ceridwen e Gwion Bach carregam os protagonistas pelo elemento terra (lebre e cão), água (peixe e lontra) e ar (passaro e águia). Por fim Gwion é a semente, uma concentração de força vital que carrega potencial para se tornar qualquer coisa. E Ceridwen é agora a devoradora, a energia da morte que se contrapõe a energia da vida da semente. Como Taliesin disse no poema "The Hostile Confederacy", "A colheita me tomou para libertar a minha essência" Ceridwen prepara o processo de renascimento ao ser a terra que nutre a semente, ela é o ponto onde o velho se quebra e é refeito no novo.
Caldeirão de Ceridwen
O Caldeirão de Ceridwen é um dos vários mencionados na mitologia celta. Outros dois importantes são o Caldeirão de Annwn (o Submundo gales) e o Caldeirão do Renascimento. Estes são descritos no poema "The Spoils of Annwn", que pode ser traduzido como o Espólio ou Legado de Annwn. Adivinhem quem escreveu este poema? Ele mesmo, Taliesin, o bardo, nascido de Ceridwen após ela comer Gwion como um grão.
O Caldeirão de Annwn é feito de pérolas e aquecido pelo sopro de nove moças. Ele não prepara comida para covardes e traidores que quebram suas palavras.
O Caldeirão do Renascimento tem um papel fundamental na segunda parte do Mabinogion. Seu poder é o de ressuscitar um guerreiro morto colocado no seu interior e deixá-lo pronto para lutar novamente, mas sem a capacidade de falar novamente. Parece que Game of Thrones pegou uma referencia mitológica aí? Talvez! É interessante perceber como a fala e o que é dito é importante em ambos os caldeirões.
O Caldeirão de Ceridwen é o da Inspiração. O termo gales para Inspiração é
awen. Muitos poetas galeses dizem "Eu recebi
awen do caldeirão de Ceridwen" As vezes
awen é traduzido como uma musa, mas isso não traduz adequadamente o sentido da natureza do
awen, o poder de discursos inspirados. Este presente do Outro Mundo é dado aos humanos de maneira inesperada e suas demandas são maravilhosas. Uma pessoa que recebe o
awen nunca mais será a mesma, ela irá em busca de Ceridwen, que insiste que abracemos nossa essência divina para darmos voz a ela.
Animais de Ceridwen - A Grande Porca

Esses porquinhos são fofinhos demais!
Ao lado dos outros aspectos, Ceridwen é as vezes chamada da deusa porca ou porca branca - especificamente, Great Sow. Documentações sobre esta visão não são muito abundantes, mas a conexão vale a pena ser vista. Mães porcas, na natureza, podem ser ferozes e até mortais. Na mitologia, porcos são animais associados com a terra e com o submundo. Os contos celtas possuem muitas referencias a suínos como a carne comida no Outro Mundo (e cozinhada em um caldeirão). Na quarta parte do Mabinogion, os porcos domésticos são ditos como sendo presentes de Annwn ( o Submundo).
As lendas galesas sobreviventes contam sobre duas porcas em particular. Uma é descrita na Tríade 26. Grande e feroz, ela parte para a Cornuália e Gales enquanto estava grávida. No sul de Gales, ela dá a luz a um grão de trigo e uma abelha, tornando a região famosa por seu mel e trigo. Ela dá a luz a cevada em outra área e a mesma se torna o melhor lugar para crescer cevada. Nas montanhas do norte, a porca se torna mãe de um lobo, uma águia e um gato monstruoso, a águia e o lobo são dados a dois nobres. O gato foi jogado ao mar, nadou até Anglesey e matou 9 guerreiros (nunca joguem gatinhos na água!)
A outra porca aparece na Quarta Parte. Esta parte descreve a vida de Lleu Llaw Gyffes, um herói gales do Mabiogion que tem algumas semelhanças com as lendas irlandesas de Lugh, o deus sol.
Houve um momento em que Lleu estava terrivelmente machucado e se transformou em uma águia para fugir. Seu pai adotivo, Gwydion, estava procurando por ele sem sorte durante todo o dia e decidiu passar a noite na casa de um camponês. Lá, Gwydion descobre que eles possuem uma porca que sai todas as manhãs e só retorna a noite para cuidar dos seus porquinhos. Gwydion (que devia estar procurando seu filho, mas deve ser meio distraído) decide ir atrás da porca que o guia até um magnífico carvalho. Aos seus pés, ela se alimentava da carne apodrecida de Lleu Llaw Gyffes. Ainda na forma de águia, ele estava empoleirado nos galhos mais altos do carvalho. Gwydion, então, chama seu filho através de um poema entristecido e espontâneo para que ele desça da árvore e retorne a forma humana.
Lleu como uma águia na imagem do Mabinogion de Charlotte Guest, 1877
A partir destas duas histórias, percebe-se algumas ligações das porcas com Ceridwen e seu poder de poesia, nascimento, morte e transformação. Não é possível dizer que elas são exatamente Ceridwen, no entanto.
Dias Sagrados de Ceridwen
Em algumas fontes, 3 de julho é considerado o dia de comemoração de Ceridwen.
No entanto, devido sua associação com os grãos e colheita, ela pode ser relacionada à colheita de outono. Sua ligação com porcos também aponta para essa época do ano, já que os porcos na Europa Ocidental iam para os bosques em Outubro para comer bolotas e outros. Isso nos leva a concluir que Ceridwen é a deusa do Halloween ou Samhain ou do Nos Calan Gareaf (O Princípio do Primeiro dia de Inverno) que é considerado a última colheita e o começo da parte obscura do ano.
Algumas tradições wiccanas atribuem o Imbolc (1 de Fevereiro) como um dia dedicado a Iniciação - comemorando a Iniciação do jovem deus. Em todos os casos, Ceridwen pode ser considerada nestes dias. Uma forma de entender porque ela caçou e devorou Gwion Bach é a transformação em mito do treinamento e iniciação dos poetas galeses. Mais do que isso, a palavra Imbolc pode ser interpretada como "in the belly, in the womb" ou "na barriga, no ventre" - não apenas Gwion esteve na sua barriga como seu caldeirão é um tipo de ventre.
Em gales, Imbolc é chamado usualmente de Gwyl Fair y Canhwyllau ( a Festa de Maria das Velas) ou podem haver nomes similares a Maria ou a substituição por Brigit (Ffraed, em gales). Essa tradição surgiu nos seculos 18 e 19, onde grupos de cantores vão de porta em porta fazendo desafios poéticos. Frequentemente os cantores e pessoas das casas bebem juntos com velas ao redor de um vaso grande.
Dia a dia com Ceridwen
Ceridwen é uma deusa que espera bastante de nós. Ela nos empurra para sermos melhores e nos força a tirar tudo que obscurece nossa natureza real. Mas, como a perseguição a Gwion Bach mostra, alcançar a verdade sobre nós mesmos é uma jornada assustadora e inconfortável no processo.
Convidar as energias de Ceridwen para sua vida não é uma etapa fácil. Por outro lado, às vezes é algo que precisamos fazer - e se não fizermos as circunstâncias da vida irão nos empurrar nesta direção.
''Conheça você mesmo" tem sido o mote de varias religiões misteriosas e certamente se aplica a Ceridwen. Um exercício comum é chamado de Espelho Preto e Branco e é interessante para trabalhar as energias de Ceridwen, mãe da luz e escuridão.
Exercício do Espelho Preto e Branco
Judith Shaw, do Feminismo e da Religião, diz: "Quando Ceridwen chama seu nome, saiba que a necessidade de mudança está sobre você. É hora de examinar quais circunstâncias em sua vida já não servem. Algo deve morrer para que possa surgir algo novo e melhor. Forjar estes incêndios de transformação irá trazer uma verdadeira inspiração para a sua vida. À medida que a Deusa das Trevas Ceridwen persegue sua versão de justiça com energia incessante, então você pode respirar o poder da Divina Feminina que ela oferece, plantando Sementes de mudança e perseguindo seu crescimento com uma energia incessante própria ".
Consiga um caderno pequeno que seja possível levar a todo lugar e use-o apenas para este exercício. Por uma semana, escreva suas qualidade negativas - todas as características e tendencias que conseguir pensar e que o afastam de ser a melhor pessoa que você poderia ser. Na próxima semana, pense sobre essas características e as avalie de 1 a 3, levando em conta o quanto ela causa de impacto em você. Por exemplo, se você perde a paciência facilmente, você pode classificar a Raiva com o número 3; se você conta uma mentira branca de tempos em tempos, você pode considerar Desonestidade como um 1. Essas duas semanas podem ser bastante desconfortáveis - mas as próximas duas são mais ainda para algumas pessoas. Agora, você vai passar uma semana listando todas as suas qualidades, coisas que você gosta sobre si mesmo. Na próxima semana, da mesma maneira, coloque notas para cada qualidade. Depois tire uma semana ou duas (não mais que isso) para perceber os padrões nas suas características gerais. Analise os padrões de características segundo os elementos que Ceridwen perseguiu Gwion Bach: Terra (o corpo, os cinco sentidos, as necessidades físicas), Água (emoções) e Ar (a mente, intelecto e ideias). Se você prefere trabalhar com os 4 elementos e adicionar o Fogo, considere-o como a força de vontade e persistência.
No fim desse exercício você vai se conhecer melhor e saber onde trabalhar e remediar. Você vai perceber que seus defeitos e qualidades são dois lados de uma mesma moeda. Por exemplo, sua teimosia e persistência são basicamente a mesma característica, diferindo apenas em como está sendo usada nas situações da sua vida. Não há respostas certas neste exercício, mas respostas bastante individuais. Neste exemplo, teimosia e persistência podem estar ligado a terra para alguns ou fogo para outros. Seu auto-conhecimento é o que importa aqui e por isso algumas pessoas fazem este exercício uma vez ao ano.
Trabalhar para transformar você no melhor condutor de energia divina que você puder é talvez a melhor maneira de devoção a Ceridwen. Mas você também pode honra-la em menor escala. Em um dos poemas atribuídos a Taliesin chamado Defence of the Chair, o poeta fala em oferecer a Ceridwen leite, bolotas e orvalho. É possível substituir o orvalho por água de uma nascente, mas de forma geral são oferendas simples. Velas e altares para ela podem ser nas cores vermelho, preto e branco. Um pequeno caldeirão com uma vela dentro pode ser um bom começo para as meditações com foco nos mistérios desta deusa. Mas se você não tiver tempo para mais nada para Ceridwen, cultive seu interesse por poesia. Recite, leia alto, cante. E se o awen (inspiração) chegar até você, deixe-o fluir suas próprias criações.
Notas finais: esse texto foi montado depois de leituras em vários sites e blogs tanto em português quanto inglês, mas principalmente foi baseado em traduções feitas por mim do livro Magic of the Celtic gods and goddesses: a guide to their spiritual power, healing energies and mystical joy de Carl McColman e Kathryn Hinds